15.2.10

Homem com mais de 40 era velho

Rua da Amargura

Dias atrás o redator Rogerio Schneider, aqui da 141 SoHo Square, comentou que coleciona e relê textos da publicidade que considera clássicos. Este anúncio criado pela DPZ, escrito por Washington Olivetto, ele contou que se deu ao trabalho de redigitar com uma lupa, garimpado do primeiro anuário do Clube de Criação de São Paulo onde ganhou prata na categoria jornal. Entre chaves [ ] estão as palavras e frases que ele ficou em dúvida ou não conseguiu identificar. Este anuário com trabalhos da propaganda brasileira de 1975, ano de fundação do clube, teve uma edição fac simile em 1995 e de onde fotografei a capa, o anúncio que publiquei no Flickr.

Abaixo segue o título e texto redigitados pelo Schneider:

Homens com mais de 40 anos oferecem seus préstimos profissionais a empresas de pequeno, médio ou grande porte.
Cartas para a Rua da Amargura, sem número.


Brasileiros, vacinados, casados, com chapa do pulmão, certificado de reservista, título de eleitor, diploma de primário, ginásio, colegial, técnico e até universitário.
Mas com CIC e carteira profissional aposentados.
Este é o curriculum-vitae dos homens que estão pedindo para trabalhar na sua empresa.
Alguns já exerceram cargos importantes em outras empresas, têm tarimba, espírito de liderança e tudo mais que você procura num funcionário exemplar.
Outros começaram por baixo e continuaram por baixo, mas prometem se esforçar ao máximo para corresponder.
Mas todos têm um defeito considerado gravíssimo: a idade.
Por que a idade é um defeito?
Nós explicamos.
O Brasil de hoje é um país que tem 2/3 de jovens na sua população.
E uma procura de trabalho quase tão grande quanto a oferta.
Acontece que, com essa avalanche de jovens, a lei do fundo de garantia, o aparecimento de novas escolas e uma série de mitos que o tempo fabricou, os homens com mais de 35 anos foram sendo marginalizados.
E hoje, aqueles que não conseguiram atingir os 40 anos numa posição sólida como a sua comemoram o Dia do Trabalho na rua.
Condenados à solidão, ao desprezo, à falta de amigos, de trabalho e, muitas vezes, de meios para sustentar a mulher e os filhos.
Numa situação indigna, covarde, desleal, dura e fria.
Mas isso tem que acabar.
Um país que se diz em desenvolvimento não pode se dar ao luxo de desperdiçar o potencial de homens que aprenderam a trabalhar nas épocas mais difíceis.
Um país com tanto sangue jovem não pode deixar de colocar um pouco de experiência nesse sangue.
E, por incrível que pareça, mais uma vez você é uma das únicas pessoas que pode fazer alguma coisa.
Só que agora é de graça.
Porque o problema do homem com mais de 40 anos é mais moral do que financeiro.
E moral você pode dar sem colocar a mão no bolso. Basta você tirar dos anúncios classificados da sua empresa aquela frase com o preconceito em negrito: idade mínima 18, máxima 30.
Atender com dignidade, e não com dó, a todos os homens com mais de 40 anos que procurarem trabalho com você.
E procurar descobrir o talento e a vontade de trabalhar que pode estar escondida dentro de uma cabeça coberta de cabelos brancos.
Fazendo isso, você pode até não acabar com o problema desses maiores abandonados.
Mas já dá uma boa ajuda.
E ainda por cima presta um serviço aos jovens, ao país e à sua empresa.
Aos jovens, porque para eles é sempre bom trabalhar ao lado de alguém mais experiente.
Ao país, porque para ele é sempre bom ter um desempregado a menos e um contribuinte do imposto de renda a mais.
E à sua empresa, porque para ela é sempre bom ter um funcionário que traga lucros em vez de problemas.
Se você entender, colabore.
Lembre-se que o Kissinger, o Presidente Ernesto Geisel, o Linus Pauling, e o [...] já passaram dos 40 faz tempo.
E nem por isso você acha que eles são [dispensáveis].
Ou acha?
No anuário tem a ficha técnica do anúncio - Redator: Washimgton Olivetto, Diretor de Arte: Francisco Petit Roig, Fotógrafo: Luiz Guilherme Assumpção, Produtor: Ronald Persichetti, Agência: DPZ, Produto: Institucional, Anunciante: Conselho Nacional de Propaganda, Aprovado por: Joel La Banca. O nome do Petit está em português, acho que só depois da redemocratização da Espanha ele voltou a usar o Francesc, em catalão.

Pelo jeito, naquele tempo uma pessoa com mais de 40 anos era considerado velho para o emprego, não só na propaganda, mas em vários setores da economia. Imagino que eu, que tenho 45, estaria em dificuldades :-)


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